sábado, 18 de junho de 2011

Recomeçar

Enclausurada dentro da sala escura de um cinema lotado ela estava totalmente alienada á chuva que caía ensandecida do lado de fora. Ignorava completamente o buzinaço dos carros e a loucura das pessoas correndo de um lado para outro tentando fugir daquilo que parecia o apocalipse convertido nu dilúvio decidido a acabar com a humanidade.
Enquanto lá fora o mundo se acabava em água, ela se aconchegava num corpo quente que a fazia sentir-se protegida até mesmo da tempestade que tentava trucidar a humanidade naquele mar gelado.
Já não se importava com nada naquele momento. Há muito esperava por aquele filme e nada que acontecesse a faria arredar daquela poltrona. Logo na primeira cena sentiu seu coração pulsar mais forte. A cada cena sentia sua própria existência sendo projetada á sua frente para contar-lhe a própria história.
Olhava aquela doce criatura que sentada ao seu lado acariciava-lhe as mãos. Lembrava de tudo que vivera na noite anterior. Somente as paredes eram testemunhas da imensa felicidade que sentira ao estar com ele naquele quarto fechado aventurando-se por caminhos desconhecidos madrugada a dentro.
Ainda sentia no corpo o toque daquelas mãos finas a apertá-la com veemência, da boca cor de rosa a sugar-lhe o néctar dos lábios com beijos que expeliam o fogo de uma paixão incontida.
Lembrava-se do êxtase na hora da entrega. Dela deixando-se levar a uma viagem de prazer e volúpia. Depois de tudo, aconchegada naqueles braços magros ela se sentia protegida quão a lua que se aconchega á sombra da terra, pois sabia que aquele que lhe dera tanto ainda tinha muito a lhe dar.
Agora estava feliz, à custa de muita persistência conseguira se apaixonar novamente. De um jeito bastante sorrateiro, aquele que tinha no rosto os olhos baixos de cansaço, roubara-lhe o corpo, a alma e o coração e a fazia se sentir amada como nunca pensou ser.
A última cena soou para ela como um convite a se entregar totalmente e se deixar levar sem medo e tentar buscar aquilo que seu coração vinha lhe cobrando a tanto tempo. Um pouco de amor.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Lembranças passadas de um espírito imortal

O que é a morte? - Perguntava-me o barqueiro. Eu não sabia responder, mas para mim parecia até irônico um mensageiro do senhor dos mortos me perguntar algo tão simplório. Eu estava morto havia poucas horas e ainda sentia a sensação de estar respirando.
Meu corpo apesar de gélido e pálido trazia no semblante calmo os resquícios da vida que há pouco me fora ceifada. No mundo dos vivos meus restos se perdiam dependurados na corda da forca que me fizera justiça ao crime que, em vida, havia cometido.
-Me fale de você – Pedia aquele que remava a me levar á julgamento no campo dos Esfóleos. Eu não queria saber de muito papo mas percebi que me prender no silêncio não me ajudaria, então contei a ele minha história.
O ano era 1785 eu era um jovem viajante em busca de aventura. E ela, bem, ela era uma jovem bela, de cabelos negros como uma noite enluarada. Em seu rosto pálido brilhava uma certa alegria triste, uma mistura de medo e sonhos desencantados à uma esperança que ainda ardia no fundo da mente.
A conheci numa taberna. Seu pai, o proprietário, a tratava como uma cadela, sempre aos gritos e palavras de ofensa. Quando a vi, pensei em te-la pra mim. Seria apenas mais uma noite, depois eu seguiria meu caminho. Mas ela não deixou. Se prendeu a mim e eu me prendi a ela numa troca de sentimento, desejo e paixão. Amor não, pelo menos não nos primeiros dias. Depois uma coisa estranha me invadiu por dentro e eu já não queria saber de mais nada a não ser salva-la daquele monstro molestador.
Era madrugada, o lugar já estava fechado. Já tínhamos tudo minunciosamente planejado. O velho dormiria dopado pelo sonífero que ela pusera em sua bebida e eu entraria á socapa da noite e a roubaria para mim. O único problema era que ele guardava as chaves da casa dependurada no peito.
Naquele dia de certa forma, a sorte nos sorriu e ele bebeu um pouco mais do que devia. Exatamente as 3h45 da madrugada, ela sairia pela porta, montaria em meu cavalo e nós galoparíamos rumo à liberdade. Pouco antes da hora combinada, eu já estava a posto com minha montaria, de repente, ouvi gritos, sons de garrafas quebrando, um tapa e mais gritos, todos dela.
Uma fúria maior do que eu, tomou conta de mim. Eu perdi a visão e entrei arrebentando a porta. Com a arma em punho me deparei com minha amada toda rasgada e machucada e aquele troglodita apertando lhe o pescoço à leva-la a morte. Não pensei duas vezes, um único tiro e ele caiu, morto.
Não levaria muito tempo até a cavalaria da polícia rodear o local. Tomei-a, ainda sem fôlego em meus braços. Corri com ela pela porta de entrada, onde uma pequena multidão já de avolumava. Joguei-a sobre meu cavalo, montei e cavalguei como nunca antes.
Foram sete dias e sete noites de fuga desenfreada com a lei em nosso encalço, até os perdermos de vista. Abrigamos-nos em uma velha cabana abandonada frente a um lago de águas límpidas. Lá construímos nossos sonhos e nossa vida.
Por tempos vivemos bem até que um certo dia acordei com uma sensação estranha. Não sabia bem o que era mas aquilo me perseguiu o dia todo. Não sei, mas talvez fosse uma premonição de que algo ruim iria acontecer.
Sai pela manhã para minha labuta diária mas não conseguia me concentrar em nada do que fazia. Só pensava naquela dor no peito que me afligia. Voltei pra casa correndo e quando entrei pela porta, me deparei com uma cena que jamais se apagará de minha memória.
Sobre a nossa cama de maneira ela nua cavalgava sobre um corpo que não era meu. O suor que escorria pelo corpo embaçavam seus cabelos que outrora me aqueceram. Sua voz que me encantava, se fazia em gritos de êxtase pelo calor da volúpia. Seu corpo, que eu achava ser só meu, já não me pertencia mais, havia se perdido nas teias farpadas da traição. Seu rosto que me fazia perder a noção de tamanha beleza se perdia nas carícias violentas de alguém que eu conhecia bem.
Aquele homem, que eu achava havia matado dentro daquela taberna, não era seu pai, mas sim seu marido, que voltara para reaver o que eu havia lhe roubado. Mas eles pagaram caro o preço por me enganarem e hoje seus corpos mortos repousam para sempre ainda abraçados no fundo daquele lago de águas claras, agora manchadas pelo sangue da vingança de um homem traído.
- Uma moeda para o barqueiro – Pediu o homem de manto negro no final da viagem. Atirei-lhe uma dracma de outro que carregava comigo. Ele a segurou no ar e na névoa desapareceu, enquanto eu seguia com destino a minha viagem final.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

As montanhas de picos rochosos

Num tempo distante, havia um lugar. Um lugar não reconhecido pelos mapas. Um pequeno vilarejo ao sul, de grama verde, céu azul, pássaros de canto raro e montanhas de picos rochosos que rodeavam a pequena vila como se quisesse protegê-la dos perigos do mundo que lá fora se perdia.
Numa cabana simples duas vidas que se cruzaram pelas teias do destino tentava buscar nas coisas simples um modo de ser feliz. Era um amor proibido. Ele fugira de um casamento arranjado com alguém que não amava e ela de um homem que por muitas vezes atentou contra sua existência.
Foram muitas lutas até se verem ali, apaixonados, encontrando um nos braços do outro proteção e paz. Desse amor nasceu um menino de cabelos escuros e olhos da cor do céu. Para eles, um presente de Deus para recompensar uma vida de lutas e sofrimento na busca por um pouquinho de felicidade.
E esse menino cresceu correndo pelos campos verdejantes do vale que se infinitava a frente de sua janela. Bebendo da água pura do riacho que passava a pouco de sua porta, subindo e descendo as montanhas de picos rochosos e vendo os pássaros cortarem o céu que parecia refletir a cor seus olhos na imensidão. “Um dia ainda vou voar como vocês”, pensava.
A vida a beira do riacho não era fácil. Estudava numa pequena escola do vilarejo, ajudava o pai no cultivo dos alimentos e a mãe no cuidado com a casa. E a noite, dedicava-se à realizar seu sonho, estudando com afinco e dedicação. Muitas vezes singrava a madrugada sob a luz de uma lamparina para aprender tudo que seus mestres lhe ensinavam.
Quando homem deixou a pequena cabana para aventurar-se do outro lado do oceano. Os primeiros anos foram de muita dificuldade, mas aquele jovem aprendera cedo que nada na vida é fácil, mas que vale a pena sacrificar o que lhe é caro se isso lhe trouxer aquilo que mais deseja..
Na escola de aviação começou sua saga. Muito trabalho e estudo. Os divertimentos mundanos era algo que não lhe fazia falta. Mulheres e festas para ele eram um objetivo distante. Teria muito tempo para essas regalias depois que já tivesse voado pela primeira vez.
Formou-se. O primeiro vôo foi algo que ele nunca esquecera. Anos depois ainda se lembraria da primeira vez, do frio na barriga, do medo e da alegria ao ver que tinha conseguido. Os anos de esforço valeram a pena.
Sim. Agora, como os pássaros do vilarejo onde nascera ele voava e se sentia a liberdade entrando por seus olhos tal como jamais sentira. Foram anos de dedicação às forças armadas até a guerra estourar naquele país.
Mas numa gelada noite de outono veria-se traído por seus próprios sonhos. O destino cruel lhe apunhalaria pelas costas. De madrugada ainda dormia quando a sirene soou anunciando um ataque surpresa à aliança inimiga. Prontamente apresentou-se para cumprir o seu dever. Mas seu coração gelou ao ler as instruções repassadas pelo primeiro comando.
Dentro do envelope fechado a localização do próximo bombardeio. As coordenadas indicavam o lugar exato lugar onde nasceu e cresceu, onde aprendeu a dar os primeiros passos e a sonhar em um dia poder voar, onde ainda vivia, na velha cabana sua família, que há muito deixara.
As ordens eram de atacar ainda sem a luz do dia. Dominado pela angústia decolou seguindo as coordenadas contidas no papel. Sobrevoava o vilarejo. As mãos trêmulas no manche. Seu vale de sonhos agora era um capo de guerra e horror. Com lágrimas nos olhos, mirou a grande montanha que se levantava à sua frente. Um rasante certeiro, uma explosão tamanha, a fumaça suspensa, depois um silêncio cortante e naquele segundo tudo acabou. E até hoje a aldeia distante chora por seu menino, preso na teia gigante de um destino traidor.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O som do silêncio

Era um dia pálido. No céu o sol não brilhava e suas luzes foscas apenas mantinham claro o cinza de um firmamento que insistia inutilmente em tentar me alegrar. Talvez tenha sido apenas impressão, mas eu sentia como se eles chorassem comigo minhas tristezas.
E eu andava a passos curtos de cabeça baixa e olhar triste, ao meu ouvido Axl Rose cantava com aquela voz estridente uma canção que até então eu não conhecia, November Rain, era o nome. Eu não fazia idéia do que aquelas palavras diziam, mas o fato que ele parecia conversar comigo através daquela canção e me dizer coisas que ninguém me dissera.
Pode até parecer loucura, mas era como se fôssemos velhos amigos conversando numa mesa de bar. “When I look to your eyes”, dizia ele, como se ele realmente pudesse ver em meus olhos o que eu carregava dentro de mim. Uma angústia que me assolava e me fazia baixar num cinza escuro tal qual o céu que pousava sob minha cabeça.
Não sei, mas de certa forma ela me acalentava. Aquela voz rasgada me trazia um conforto que ninguém jamais me trouxera. Sim, era como se aquilo que eu denominava Deus falasse comigo através daquela canção e mostrasse meus erros e acertos com uma melodia singela.
Mas tudo em mim paralisou quando percebi que de meus olhos escorriam lágrimas. Era como se o mundo que antes existia palpável a minha frente se dissolvesse, até eu me encontrar ali chorando ao ouvir a voz de Axl Rose a cantar November Rain.
Pode até parecer besteira, mas eu sabia que de alguma forma aquela canção se encaixava ao que eu estava vivendo e sentindo naqueles dias. E ele, através dela me dizia exatamente o que o precisava e queria ouvir. As batidas da bateria e o solo das guitarras agudas me diziam: “Você a ama, vá atrás dela, não deixe esse amor lhe escapar por entre os dedos por nada”.
Sim, realmente eu a amava e não queria perdê-la, mas a vergonha e o orgulho me impediam de um gesto simples, admitir. E por isso chorava, por não ser homem o suficiente para entender que não importava o que eu fizesse, eu continuaria a amá-la mesmo estando longe.
E Axl Rose gritava, “Vá, não a deixe fugir, corra, ainda há tempo”. Bati a sua porta. Com um sorriso calmo e uma voz doce ela me aceitou.
Acho que naquele dia pálido, ele me ensinou mais do que o perdão é uma dádiva, ele me mostrou que o amor, o verdadeiro amor não é orgulhoso, não é soberbo. O verdadeiro amor tudo sofre, tudo suporta e tudo perdoa.
Olhei para o céu sorrindo mas ele continuava repousando em sua melancolia. E ao pé do meu ouvido, Axl Rose ainda me dizia: “Meus parabéns garoto, você conseguiu”.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Luvas

Era uma cena até engraçada. Um homenzarrão de braços fortes e tatuados sentado num banco de praça chorando como uma criança que perde um doce. A realidade é que aquele lutador, que nos ringues derrubava qualquer um que cruzasse seu caminho, no fundo não passava de um homem sensível, incapaz de odiar um inseto que fosse e que chorava por qualquer coisa.
Mas naquela manhã tinha um motivo para chorar. Há dias procurava por alguém que por muito tempo foi a razão de sua existência, que estivera ao seu lado em todos os momentos da vida, nas conquistas e nas grandes adversidades. Um ser que não o desamparava e que levava consigo onde quer que fosse.
Lembrava-se do dia em que se conheceram. Sobre suas cabeças o céu desabava em um temporal de raios e trovões e ambos corriam desesperados tentando se proteger da fúria do firmamento que os açoitava traiçoeiramente.
Há muito se viam perdidos pela rua, mas só então se aproximaram. Não sabia bem porque, mas encantou-se com aqueles olhos negros e aquele jeitinho carinhoso. Não o amou exatamente no primeiro momento que o viu mas o dia-a-dia foi tornando-os cada vez mais próximos, fazendo nascer entre eles um sentimento recíproco de amor e companheirismo.
A luta contra um câncer foi a mais dura batalha que travara em sua vida. Nenhum adversário, por mais forte que fosse o deixou tão arrasado. Naquele ringue lutava por sua vida, uma luta que muitas vezes quase o levou a nocaute, mas naqueles momentos escuros aqueles olhos negros estavam lá para levantá-lo e o fazê-lo revidar antes que o gongo soasse pela ultima vez. No final aquela batalha foi vencida graças ao carinho de quem jamais desistiu dele, e que esteve ao seu lado mesmo quando todos acreditavam ser aquele o fim.
Mas vida não era feita apenas de sonhos. Brigavam muitas vezes, mas o engraçado é que as brigas sempre terminavam em abraços de carinho e ternura sobre uma tijela de sorvete. Mas naquele dia, não sabia porque razão, aquele de quem jamais se separava não voltara, fazendo-o amargurar um sofrimento que lhe corroía por dentro até a raiz dos cabelos.
Por dias a fio o procurou pela cidade, sem dormir ou comer. Tinha a esperança de encontrá-lo num beco qualquer ou que ele estaria a sua espera quando voltasse para casa. Mas nada, apenas lhe fazia companhia uma foto e as sombras de outros que, apesar de tentarem, não ocupavam o espaço vazio de seu coração. Por isso chorava.
Levantava-se para ir embora quando ouviu ao longe o som de como quem o chamava. Quando voltou-se para trás, viu a imagem daqueles olhos escuros e daquele sorriso terno e a alegria então voltou àquele semblante já cansado de chorar. Correu a passos largos ao seu encontro, o abraçou e o beijou como se aquela fosse a última vez que se encontravam.
As lágrimas que agora lhe desciam pela face não eram mais de tristeza, mas de alegria por ter de volta quem tanto amava. Sim, ele voltara, com aqueles olhar terno, aquelas orelhas caídas e o rabo a balançar de alegria. Agora tinha de volta cãozinho de estimação, então poderia sorrir feliz novamente.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Meina da praia

Ela caminhava lentamente noite adentro. Uma leve brisa que vinha do oceano tocava seu rosto. A rua vazia e escura deixava-a a mercê de seu próprio destino. Seu corpo empinado caminhando pela madrugada e envolto em roupas brilhantes a fazia assemelhar-se as poucas estrelas que iluminavam o céu naquela noite de junho.
Ela olhava para os lados a procurava por alguma coisa, sabia que em pouco tempo não estaria mais ali. Focava seus olhos em um ponto qualquer no horizonte escuro de além mar. Os galhos das árvores ecoavam sons de lamúria açoitados pela agressão do vento que soprava gelado. De repente ao olhar para o lado ela se alegra ao ver uma luz se aproximando. Acabara de encontrar o que tanto procurava.
Dentro do carro o calor humano a aquecia do frio que fazia lá fora. O cheiro forte de fumaça de cigarro chegava a irritar-lhe as narinas, sobre o painel, uma garrafa de bebida chamou sua atenção, fazendo-a sentir vontade de talvez não estar ali.
De repente sente uma mão forte tocar seu corpo e num instante aquela doce menina enche-se de volúpia e libído. Sua respiração ofegante demonstra o estado de êxtase total em que seu corpo e sua mente se encontram. A mente desavaira-se com um prazer outrora jamais sentido.
Ela sente o forte toque daquelas mãos e por um instante se sente protegida de qualquer perigo que o mundo possa lhe oferecer, pois tem a certeza de que aquelas mãos a protegerá.
Seu corpo, agora despido mostra em sua nudez toda a beleza recolhida sobre as roupas brilhantes. Uma boca perfumada toca com veemência seus lábios cintilantes, fazendo-a por um instante sentir-se amada. Seus olhos amedrontados agora brilham alegres e mais intensamente que minúsculas estrelas que ilustram aquele céu escuro do lado de fora. Um desejo infinito toma conta de seu corpo, que é beijado e acariciado por aquelas mãos que, apesar de rígidas, exalam carinho e ternura. Seu mundo agora se limita as portas daquele carro, lá dentro ela permaneceria por toda a eternidade; feliz e protegida por uma mão forte que não a deixaria desamparada.
De repente tudo se acaba. Seu corpo suado repousa sobre o banco do carro e aquelas mãos antes tão rígidas agora pousam sobre ele tão macias quanto a brisa que acalentava seu rosto a beira mar.
Num instante ela recebe o pagamento por seu trabalho e depois daquele momento de prazer ela volta a ser a desprotegida menina da praia.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Obsessão

O corpo jazia inerte dentro dentro do sepulcro lacrado á mármore negro. O silêncio daquele recanto eterno que há muito não recebia uma visita era quebrado apenas por um choro descompassado do lado de fora de uma jovem menina que pela aparência acabara de sair da adolescência.
Ela chorava amargamente a perda da mãe, que de uma hora para outra morrera de uma forma tão trágica. Ninguém entendia o porque daquela morte repentina, já que a velha matriarca sempre apresentou vitalidade e saúde perfeita. Tamanha era sua tristeza que mal conseguia se sustentar sobre as próprias pernas, tendo que ser amparada pelos irmãos e alguns amigos que acompanharam o cortejo final daquela doce criatura, que agora, caminhava pelo vale das sombras da morte.
Sempre fora uma menina controlada, mas diante daquela perda, não conseguia conter as lágrimas que insistiam em escorrer por suas faces avermelhadas pelo calor do sol escaldante. Por muito tempo debruçara-se sobre o túmulo negro da mãe, que parecia, de dentro do sepulcro, acalentá-la com uma foto delicadamente colocada sobre a lápide, adornada por um pequeno porta-retratos banhado em ouro. Chorava rogando aos céus que para que também a levassem, melhor seria descansar no sono eterno do que passar o resto da vida sabendo que aquela que, por muitas vezes a fez dormir com histórias de contos de fadas não mais a colocaria na cama e nem lhe daria um beijo de boa noite.
lembrava-se das horas felizes que viveram juntas; da infância alegre, das tardes quem passaram sob a sombra da grande árvore da velha fazenda dos avós, a mãe empurrando-a no balanço de corda, das vezes em que se perderam em meio ás árvores de uma pequena floresta em busca de uma rosa ou um beija flor. Sempre fora uma criança doce, nunca dera trabalho e o carinho que recebia da mãe fazia sua infância ser mais feliz do que se podia imaginar.
A adolescência não foi fácil, perdera um pouco do encanto, porém ainda mantinha nos olhos o brilho dos tempos idos de menina. Lembrava-se do primeiro amor, do primeiro beijo, da primeira vez. Momentos em que o carinho materno sempre estiveram presentes, para acalentá-la com palavras doces, para repreendê-la com duras críticas ou para dar-lhe um abraço carinhoso nos momentos em que a vida lhe fora reversa.
A mãe sempre fora sua grande amiga, que ela achava que nunca a perderia. E agora se via ali, sozinha, sem o amparo da mão daquela que por anos a fio esteve contigo nos seus melhores e piores momentos. Era como se o tempo naquele dia deixasse de existir, como se o mundo que antes existia palpável à sua frente naquele minuto se dissolvesse em infinitas partículas que tiravam o chão antes firmes sob seus pés.
A única coisa que lhe trazia algum conforto era a presença de um ex-namorado que há muito não via, sensibilizado com sua situação e viera lhe prestar seus sentimentos. A imagem daquele rapaz de certa forma era consoladora. Foi seu primeiro grande amor, uma paixão avassaladora que até aquele dia ela ainda não conseguira esquecer.
E ele a aconchegava com um colo quente aquele rosto que doía de angústia e com mãos macias acariciava os cabelos emaranhados pelo desespero. Sentir aquele aconchego e aquele carinho, por um minuto fez seus pensamentos se desfocarem da perda e pensar que tudo que fizera fora recompensado, pois aquilo o trouxera de volta, valera a pena envenenar a própria mãe para ver-se mais uma vez perdida naqueles braços.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Incerteza

Não é apenas uma questão de corpo. É alma, é espírito; é a energia interior vinda de lá do fundo da minha essência que se projeta em ações e sons sutis.
Não é apenas uma questão de braços e pernas. É a divindade humana que se propaga pelos ossos e sai pela garganta através de palavras firmes e suaves.
Não é apenas uma questão de caras e bocas. É algo que vem na naturalidade, da simplicidade e da singeleza do sentimento.
Não é apenas uma questão de fúria ou alegria nos olhos. É uma força que vem de dentro, de la do fundo da alma, que transpõe o coração e se projeta na carícia de um simples olhar.
Não é apenas uma questão de pele. É saber sentir a magia de cada toque de mãos, que pelas pontas dos dedos transmitem a emoção em forma de uma paixão incontrolável.
Não é apenas uma questão de saber fazer. É fazer com expontaneidade, com carinho e com a certeza de que valeu a pena.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Coisas de pai

Ela jazia desmanchando-se em prantos atirada sobre a cama. Os olhos vermelhos denunciavam o estado de cólera total no qual se encontrava. Roupas e ursos rasgados espalhavam-se pelo quarto, numa demonstração de um acesso de fúria típico de uma adolescente. Amaldiçoava o próprio pai - Ele não tinha o direito de fazer isso comigo. - pensava consigo mesma.Ela não entendia o porque daquele ciúme doentio que partia dele a ponto de deixá-la trancada em casa numa noite que para ela seria tão especial.
-Ele não te ama, ele não gosta de você. - A voz do pai, que aos gritos, a prendia dentro do quarto, ainda soava aterrorizante em sua memória e a fazia apertar os lábios a ponto de quase sangrá-los, tanto era o ódio que sentia. Pensamentos sinistros passavam em sua cabeça jovem, que remetiam-na a imaginar como a vida seria melhor sem aquele que lhe impunha proibições e regras descabidas e sem nenhum valor.
Chovia muito. Do lado de fora, o vento açoitava impiedosamente as folhas das árvores e do céu bramiam luzes e estrondos como se o firmamento enfrentasse o apocalipse. Mesmo assim se aventurou pela rua afora, numa intrépida procura, numa busca desesperada pelo senhor daquelas suas resoluções. Andou por ruas e lugares escuros e desconhecidos, olhava por todos os lados, desvairadamente corria sob chuvas e trovões buscando um olhar, um sorriso ou um rastro que fosse daquele a quem atribuía a razão de sua existência e sofrimento.
Parou caindo de joelhos, o rosto vermelho pelas lágrimas, os lábios roxos pelo frio e em sua cabeça um turbilhão de imagens de vozes se projetavam de sua memória e eram expurgadas por seus olhos lacrimejantes. Se via ajoelhada exatamente em frente ao começo de tudo. Aquela igreja em estilo gótico a levava a um passado não muito remoto, onde tudo havia começado. O primeiro encontro, o primeiro olhar, o primeiro beijo. Lembrava com nitidez da primeira noite, quando levada pelo sentimento, entregara-se pela primeira vez. Perdia a inocência para encontrar o amor, nos braços fortes de alguém que lhe encantava com palavras doces e olhares ternos, fazendo-a sentir a maravilha de amar pela primeira vez.
-Ele não te ama, ele não te quer. - Ainda ebulia em sua cabeça aquela voz grave. No alto da igreja um anjo esculpido no mais puro mármore branco, olhava para baixo, como se pousasse os olhos sobre ela numa vã tentativa de cumprir seu papel de protetor. Ela o confrontava, perguntando porque ele permitira aquilo acontecer. Mas ele apenas a olhava, imóvel, sem nada dizer, pois chorava com elas suas angústias e pela incapacidade de poder interceder em seu livre arbítrio.
Mas como se acordada de um sono profundo ela percebeu que estava sozinha, triste e molhada olhando para um anjo de pedra que insistia em repousar numa tristeza eterna. Foi então que tudo em si clareou e percebeu que por mais que quisesse, não haveria volta, e ela continuaria a clamar por amor a quem sequer merecia sua consideração.
-Pai, vem me buscar. - Gritou olhando para o céu num pedido de socorro.Foi quando a chuva sessou por um minuto, então ela pode ver acima de si um rosto de olhos escuros, que trazia no semblante um sorriso a lhe acalentar.
Vamos pra casa minha filha. Disse o pai aconchegando-a nos braços. No coração ainda pulsava o ressentimento, mas sabia que aquele homem de voz rude a amava, e acima de qualquer coisa e apenas queria protegê-la.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A dança da Morte

Adaptado da música "Dance of death - Iron Maiden"

Vou contar uma história estranha
que uma noite eu vivi
Ficará guardado em minha memória
Disso eu nunca esqueci

Era uma noite bem clara, mas a lua,
tinha um brilho anormal
Eu havia enchido a cara, e sem perceber,
Me perdi num matagal


Me vi sozinho e apavorado a observar
a luz macabra daquela lua
Com um brilho vermelho
A iluminar a floresta nua

Percebi perto de mim naquela luz
uma força aparecer
como que vinda do espaço ou do além
começava a me envolver

Meu corpo caiu e minha e mente então sentiu
O medo em meu olhar
Seres estranhos ao redor
pareciam rir de mim
Vendo o terror me dominar

Me levaram a um lugar profano
Cheio de medo, morte e terror,
Me envolveram num circulo de fogo
A dança, então começou

E eu dancei, eu cantei e naquele jogo
Eu vi na morte um desejo terno
Figuras mortas, expulsadas pelo demônio
Que a mim ascenderam do inferno

E fogo ardia ao meu redor, porém não me queimava
eu não sentia dor,
Minha pele ebulia nas chamas crepitantes
Mas sera como se entre elas e eu houvesse amor.

O tempo parou naquela hora,
não sentia, meu corpo e minha mente
como se meu espirito fosse levado embora
Eu via tudo, mas estava inconsciente

Enquanto eu bailava e cantava
naquela fugaz dança de morte
Meu espírito ria uivava pela noite
abandonado a própria sorte

Meu corpo extasiado
apenas dançava na música dos mortos
e minha alma vagava pelas trevas
acompanhando espíritos tortos.

Depois de dançar com a morte no escuro da noite
meu espírito retornou amedrontado,
No fogo em brasa que fritava meus pés sem dor
meu corpo foi purificado

Vi meus pecados jogados para o ar
no calor daquela fogueira
as labaredas que me incendiavam
limpavam toda minha sujeira

E queimei dentro de mim
o mal que em minha alma repousava
naquela dança aterrorizante
Eu me libertava

E daquele circulo de fogo
apareceu a sua imagem
eu vi o senhor das trevas
e ele me disse uma mensagem

De seus olhos crepitavam
as chamas do inferno, outrora
ele me disse vá-te filho de Adão
ainda não é a tua hora

E eu corri como nunca,
mais rápido que o vento, jamais correu um dia
Sete dias e sete noites, sem olhar pra trás
enfrentar aqueles olhos eu não me atrevia

Um vento gelado e inebriante
para longe me levou
levantei num beco escuro
quando um bêbado me acordou

Mas o calor daquelas chamas
minha pele ainda sentia
em minha mente queimada pelo fogo
ele tatuou uma frase que dizia

Como um pássaro de fogo
nas cinzas você renascerá
para levar a minha palavra
a quem quiser escutar

Viva filho de Adão
com tua vontade e teu cantar
mas não esqueças da dívida que tu tens
Em sete anos e sete dias, eu voltarei para cobrar.

Sobre este dia, eu acho que nunca saberei
Por que eles me deixaram partir
Mas quando o filho do escuro vir cobrar o que lhe devo
eu estarei aqui.